22.1.06

 

Num gesto de desambição...


Bom dia. Me lembro dessa frase do senador José Sarney quando era presidente da república. Seu mandato era de 6 anos mas, "num gesto de desambição", fechou nos 5. O Brasil inteiro queria que fossem só 4. Hoje, como petista, num gesto de desambição, vou comentar a dúvida dos peessedebistas em escolher sobre Serra ou Alckmin para perder de Lula na reeleição. Não que eu esteja muito feliz com o atual governo, mas o Lulinha paz&amor é também o Lulão Teflon. Nada gruda nele. No meio do intenso tsunami que abalou a República, perdeu alguns pontos para o PSDB, mas já recuperou tudo e vai ganhar no primeiro turno. O Tasso Jereissati já sabe disso e está querendo fazer as contas.
Vamos e venhamos. Acabar de eleger Serra prefeito de São Paulo e agora jogar o resto do mandato para o Kassab é pedir para não ser eleito, né? O governo de Serra é mediocre porque pegou a coisa já pronta. Tudo o que a Marta fez para ser reeleita ficou de graça para ele. E a cada enchente ele não sabe onde enfia a cara.
Serra é um péssimo administrador. Aquilo que ele fez pela Saúde foi tudo balela. Os genéricos custam mais caros que os originais, e no último ano de ministro quase matou a população do Rio de Janeiro de dengue. Ameaçar de quebrar patentes para fazer remédio mais barato é pura balela. Qualquer um poderia fazer isso. Não chega a ser uma idéia original pois a FURP, que produz medicamentos para o estado de SP já fazia isso há anos. Em suma, poupem o Brasil de outro vexame. Deixem o Serra na Prefeitura. Só falta agora largar o quarto orçamento do Brasil nas mãos do PFL.
Alckmin está saindo do governo de SP. Parece ser um bom candidato no sentido de que, se perder, será imbatível em 2010. Tem um bom caráter, não foi envolvido em nada mais grave, a não ser a sua total incapacidade de, em tantos e tantos anos, não dar um jeito na Febem de São Paulo. E tem outros defeitos também. Mas para um povo que elege Maluf, qualquer Alckmin está bom demais.
Para falar a verdade, a coisa que mais diverte os petistas é ver que, se FHC fosse candidato, não teria mais que 10% dos votos. E teve dois mandatos, heim? Que belo exemplo para se mostrar ao mundo.
Enfim, se tantos tiveram tantas oportunidades de malhar o PT em praça pública, e com razão quando se trata do canalha do Zé Dirceu, não tem nada demais ensinar peessedebista a votar. Se quiserem fazer melhor, deixe o Alckmin acabar o mandato dele no governo de SP, e escolham alguém tipo "qualquer um" do PSDB para concorrer. Será menos deplorável. Até amanhã.

21.1.06

 

O presidente da Bolívia



Bom dia. Faz tempo que eu gostaria de entender o tal do Evo Morales. Me dá a impressão que só foi eleito por absoluta incompetência da elite boliviana, aquela que, se não gostar do governo, pega um avião e vai morar em outro lugar. A mesma elite que, apesar de tudo, continua vivendo bem na Venezuela, enquanto Chávez brinca de fazer sua revolução bolivariana, trepado num monte de petróleo. Chávez gosta de brincar de ser Che Guevara. Aliás, com o tanto de petro-dólares que ele tem, pode brincar até de ser Hitler. Não faz a menor diferença. Só não pode é ser levado a sério.
Já Evo Morales está mais próximo da história de Lula. Foi um líder cocalero (das pessoas que vivem de plantar as folhas de coca para mercado legal e não para a produção de cocaína), como Lula foi um líder sindicalista. A diferença, enoooorme, é que a Bolívia não tem nem o tamanho e nem a riqueza do Brasil. E como a diferença social consegue ser ainda mais injusta que no Brasil, se Evo Morales tiver algo a mais que as bravatas que sempre fez, está com tudo para dar uma significativa melhorada na Bolívia. É quase um Tiradentes. Tá mais com cara que vai para a forca que para um segundo mandato. Esperemos para ver. Mas, todavia, só ele hoje pode construir algo de bom para a Bolívia. Tomara que mude a constituição para uma mais democrática, mas isso já é problemas deles. Eu não sou nem parente de boliviano.
O problema de Evo Morales, bem como o de Chávez, é que acham que basta xingar os EUA que as coisas acontecem. No mundo de hoje, conviver com os EUA é uma coisa inevitável. De 4 em 4 anos os americanos elegem um doido para mandar no Mundo e o que ele falar o mundo obedece, ou eles invadem e matam como fizeram no Iraque. Agora mesmo impediram o Brasil de vender 25 aviões Tucano para a Venezuela. É lógico que a Embraer poderia vender os aviões para a Venezuela, mas aí ficariam em hélices e motor, que são fornecidos por empresas americanas. Para ver como é a coisa. Como é mandar sem precisar mandar.
É bom que a América Latina caminhe mais para a esquerda, mais para o socialismo. Mas que não nos venham com esses líderes que querem ressuscitar as idéias ultra ultrapassadas no nosso véio Fidel Castro, dono de Cuba. Há socialismos mais inteligentes, como o de Lula. Mas isso só aparece agora que ele está em campanha para reeleição. Pagou o FMI, acertou os atrasados com a ONU (coisa que os EUA ainda não fizeram), está com a inflação domada e bem contida e os resultados daquele "Espetáculo do Crescimento" é até capaz de deslanchar mesmo em 2006. Eleição sempre faz milagres. Até amanhã.

20.1.06

 

Com a metralhadora na boca



Bom dia. A prepotência com que agiram os milicos durante o regime militar, que durou de 1964 até 1985, quando da eleição indireta de Tancredo Neves, o quase presidente que morreu na véspera da posse, foi algo que ninguém imaginava. Mas de todos os enormes defeitos da força bruta militar, foi a idéia de dividir os cidadãos entre os que podiam ou não fazer algo. O simples fato de se usar um uniforme militar podia trazer junto um milico linha dura, ou um que apenas fazia seu papel de militar. E de fato esses abusos não ocorriam com militares com mais de 30 ou 40 anos. Eram os novatos, os recrutas, que mais se usavam da farda para obter algo em troca, ou simplesmente para mostrar seu perfil de Rambo.
Foi assim que, ao fazer 18 anos, fui cumprir meu dever com a pátria e me alistei para o serviço militar obrigatório, que eu não queria fazer, como de fato não fiz mesmo. Excesso de contingente (ou conta em gente). Tinha barnabé demais querendo ser milico. Eles nunca precisariam de mim.
Mas eu tive que passar por todas as seleções num centro de treinamento do Exército na cidade de São Paulo. A primeira humilhação foi colocar todos nus e mandar apertar a fila. A gente não sabia se punha as mãos na frente ou atrás. Era uma loucura de pedir ajuda a qualquer um. Daí outro imbecil das Forças Armadas vinha com um bom-ar na mão, dizendo que a gente fedia e que ele estava ficando nervoso. Quando chegava a hora de falar com o médico, as coisas voltavam à seriedade novamente. Era um capitão ou major. Deu aquela olhada geral, me achou coradinho e me mandou embora. Aí sobrou apenas a ansiedade de ver quem ia se livrar do abacaxi e quem ia gramar por um ano as agruras dos treinamentos do Exército.
Os soldados, que estavam terminando o período obrigatório de serviço militar, uniformizados e bem armados (não sei pra que tanta arma), ficavam a humilhar os novatos, e a cada “falha” ou “cisma”, mandavam que esses se deitassem no chão e, depois de mais algumas humilhações, mandavam “pagar” 10 flexões.
Eu estava sempre quieto num cantinho para não ser achado, mas fui. Não tinha jeito. Mandou fazer 20 flexões. Perguntei por que. Não falou, e eu também não fiz.
O imbecil fardado ficou muito impressionado com a minha ousadia, tanto que me pegou pelos colarinhos e me levou para o meio da roda. “Faz 20 flexões aí”, berrava histérico com a metralhadora apontada para meu peito. Eu me limitei a dizer: “Atire!”. O rapazinho ficou uma arara. Todos obedecendo e este moleque manda puxar o gatilho de uma metralhadora?
“Você está pensando que a arma não está carregada?”, berrava ele enquanto tirava o pente de balas fatais que estavam na metralhadora. Eu vi as balas, pouco me emocionei, mas o projeto de milico queria me humilhar na frente dos demais, e eu estava ganhando. Os que passaram por isso antes de mim talvez tenham se arrependido de não ter feito o mesmo, ou nunca teriam mesmo coragem. Mas os que viriam depois, não seriam mais tão servis por causa de uma metralhadora.
E foi para ganhar moral que o imbecilóide resolveu enfiar o cano da metralhadora dentro da minha boca. Para saber a atitude que tomei, basta colocar 2 dedos na boca e gritar bem alto: ATIRA!!!
Foi quando apareceu um capitão, ou seja a patente que fosse, e mandou o recruta enfiar a metralhadora de onde nunca deveria ter tirado.
Essa história, que havia prometido contar a vocês, foi das mais leves brincadeiras possíveis no regime militar. Pois se um civil morresse em instituições militares, metralhado por não quer fazer 20 flexões, ainda mais por um recruta-soldado, talvez eu me tornasse o herói que salvou a Pátria. Mas não foi o caso. É só essa mania que eu tenho de não levar desaforos para casa. Quando não consigo, durmo num hotel. Até amanhã.

19.1.06

 

CPI das privatizações. O PT conseguiu!


Bom dia. Quando a gente imaginava que nada mais poderia acontecer, a providência imagina uma surpresa. E não é que um pedido de CPI para investigar as privatizações do governo FHC, e também do governo Lula, acaba de ser instalada no Congresso? Já não era sem hora. A sistema que foi aplicado na época era mesmo uma indignação. Cada grupo endinheirado pagava o preço que queria, e o BNDES ainda entrava com o dinheiro para pagar. Mamata maior que essa, nem na África mais corrupta.
O pedido saiu de um deputado do baixo clero, e não teria a menor chance de seguir em diante, mas acontece que o PSDB não sabe fazer oposição, descuidou, e o PT deu um jeito de fazer virar realidade. Vai sobrar merda no ventilador para todo o PSDB, porque eu me lembro, juro que me lembro, foi uma farra.
Nessa CPI, instalada ontem, o PT indicou 8 parlamentares e o PSDB só 2. O pobre deputado que pediu a CPI, por ser de partido nanico, nem vai poder fazer parte da festa.
A virtude dessa CPI, se é que se pode chamar de virtude, é que agora o PSDB também vai ter que maneirar os ataques ao governo, pois está com o telhado de vidro à mostra. José Serra vai se encher de lama. Olhando por esse lado, até parece que foi o Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, que providenciou a tramóia. Alckmin, para quem não sabe, se auto-intitulou candidato à presidência para disputar a reeleição de Lula.
Todo mundo sabe que eu sou petista, e que estou preparando o movimento “Zé Dirceu: ou ele ou eu!”, para que esse canalha seja jogado no esquecimento. Se o PT optar por ele, saio eu. Se optar em defenestra-lo, daí eu tento ajudar a reconstruir o partido.
Outro petista suspeitíssimo, que ainda vai ter muito que explicar aos petistas, o Zé Genoíno, cunhou uma vez uma frase exemplar: “CPI é como tubo de pasta de dente. Depois que se abre, ninguém consegue colocar o produto para dentro”. Se olhar a CPI dos Correios, que era para investigar uma corrupção de R$ 3.000,00, vamos ver que acabou fazendo um estrago muito maior. Cassou-se vários deputados, fora os que ainda estão na fila, e ainda vai provocar muitos estragos. A vantagem é que esses “estragos” são positivos.
Se você tem TV Câmara na sua casa, não deixe de assistir às cenas dessa CPI. Vai ver um monte de deputado que estava no lado dos santos, passar para o lado dos demônios. A conclusão, mesmo, é que para ser deputado a pessoa precisa mesmo entregar a alma ao diabo, e fazer qualquer coisa ilegal para conseguir o mandato. Se quiser ser correto, desista de se eleger. Até amanhã.

18.1.06

 

As delícias do que é ruim


Bom dia. Não há quem resista. Basta ser ruim para a maioria achar bom. Isso começa cedo, nos primeiros anos da escola, quando a gente aprende a primeira paródia para o Hino Nacional. O “Laranja da China, laranja da China, laranja da China...”. Depois vem as outras porcarias e, quanto pior, melhor. O prazer pela desgraça. Quando vem daqueles engarrafamentos pesados, tudo parado, e lá de longe se vê que é um acidente, pode esperar a sua vez. Os motoristas estão olhando para o estrago. Quanto pior mais tempo olha, e se tiver cadáveres espalhados pelo chão, é capaz de tapar o olho do filho e arregalar o seu para ver melhor.
Imagine uma cena onde um carro da TV, com programas tipo “Brasil Urgente”, sai na cola de um camburão da polícia e vai caçar bandidos. Pode-se até ir ao banheiro rapidinho, mas se começar o tiroteio, todo mundo corre pra ver sangue escorrer. E todo mundo sabe que tragédias cotidianas são sempre iguais: é o pai na filha, a filha no cunhado, o cunhado na sogra, a sogra no neto, o neto no irmão, o irmão na tia, que desconta no avô, que caceta a nora, que xinga o marido, e por aí vai.
Eu tomei a atitude de deixar de ver televisão há um mês. Faço tantas outras coisas. No começo dá uma crise de abstinência. Mas quando a gente lembra o que era o Jornal Nacional e o que virou agora, melhor não ver nada. Antes de botar uma fita no vídeo, sempre dou uma sapeada para ver se volto a ver TV aberta, mas mantenho a porta fechada. É mesmo muito ruim, e eu não estou aqui para dar audiência para esse bando de incompetentes que não sabem decidir se um programa é bom ou não. Façam-me o favor.
Por outro lado, como citava acima, tanta gente gosta de fumar, só porque é ruim, beber também. Que mal tem uma droga a mais, outra a menos? Tem uma lista de programas vagabundos, feitos por diretores e apresentadores de terceira categoria, e democratizado por redes de televisão que não têm vergonha na cara. Todas as redes têm programas ruins, cafajestes mesmo. Pode ter um brilho global, mas se apertar, como aquela coisa chamada “Malhação”, pseudo-novela para mostrar bunda de ninfeta em ascenção (mais pra frente cai de tanta celulite), não sai nada que preste.
Aí eu visto a minha máscara de quem não suporta mais a televisão do Brasil, meto o pau no Ratinho, enquanto ele ganha um milhão de reais por mês, mais uma cacetada no “Boa Noite Brasil”, uma torcida do tipo “não mudou nada” para o programa de Ana Maria Braga na Globo, declaro violentos os filmes que a Globo passa, enterro programas que nem assisti, e saio por aí, na crista da onda, como se dizia nos tempos da minha irmã (que é muito mais velha que eu).
Volto a repetir. A democracia é um sistema ruim de viver, mas ainda não criaram outro melhor. Que coisa mais chata, requentada, vazia, atrofiada, e todos os outros adjetivos que só os democratas conseguem dar, essa coisa de qualidade na TV. Bastaria considerar o produto TV como massa de tomate. Não gostou do cheiro, nem da cor, muito menos do sabor, nunca mais compre. Eu disse: NUNCA MAIS. A Globo, o SBT, a Record, a Bandeirantes e as TVs nanicas, além das evangélicas, devem passar programas bons, ou você não vê. Como pode alguém que fica assistindo a um programa chulo e diariamente reclamar que ele é chulo?
É bom que haja trauma da censura, pois é o que há de pior em uma democracia. As pessoas fazem o que querem e assiste quem quiser. Mas o que fazer com as crianças? Coloque ordem na casa. Se você não é capaz de colocar ordem em sua própria casa, como pode argumentar sobre programas de TV? Não creio que seja obrigação das TVs selecionarem o que vão passar. Eu, que não sou gado, nem ando em bando e detesto ser mandado, só assisto o que quero e quando digo para meu filho mudar de canal ele muda logo ou eu desligo a TV (que é minha).
Por outro lado já vivi a alegria bobo-rebelde da adolescência em fazer, ou mexer ou assistir em tudo o que não presta. Um dia fui com um grupo lá pra Matão, andei um monte, cansei pra burro, mas chegamos ao lugar onde... o menino ia jogar uma pedra numa vidraça. Eu não estaria lá se soubesse dos planos, por puro medo da polícia. No entanto, se havia mais alguém “arrependido”, não notei não. Peço minhas desculpas aos queridos leitores, mas não tenho mais saco pra falar de televisão. Essa é a última. Até que eu mude de idéia. Até amanhã.

17.1.06

 

Os selinhos do cigarro


Bom dia. Há anos estou para contar essa história. Hoje calhou. Vou contar. Eu era moleque espigado, fumava escondido, e era necessário juntar algumas moedas para comprar um maço de cigarros do mais barato. A turminha dos moleques fumantes se cotizavam para comprar um tal de Kent, que nem filtro tinha.
Toda a vez que ia abrir o maço, João gritava: deixa o selinho pra mim. E levava o selinho para sua coleção. A cada 4.000 selinhos, segundo asseverava João, a Souza Cruz, fabricante do cigarro, daria uma cadeira de rodas novinha. Eu ficava imaginando o porquê da empresa fazer isso, mas se o João falou, tá falado. Tanto que hoje ele é delegado.
O tempo passou, mas não muito e, já podendo comprar um maço de cigarros só para mim, encontro uma colega a juntar selinhos de cigarro. Claro que precisei perguntar para quê, e a resposta foi a mesma do João, só que a Souza Cruz já estava cobrando mais caro. Agora seriam necessários 5.000 selinhos.
Sonhando que não pudesse ser verdade uma maluquice dessas, tentei explicar para a colega de fumacê que o selo era emitido pela Casa da Moeda do Brasil, e distribuído para as indústrias, Souza Cruz, Phillips Morris, e demais fabricantes, para controle de pagamento de imposto. Pelo selo não seria possível saber se veio do cigarro de uma fábrica ou de outra. Não adiantou nada. Continuou a me perturbar todas as vezes que via os meus selinhos disponíveis.
O diretor da Souza Cruz afirmou, enfaticamente, que a empresa lidava com isso há muitos anos, e que nunca, jamais, em tempo algum, a companhia faria uma campanha nesse sentido, pois estaria incentivando de forma indecente a venda de 5.000 maços de cigarros, que multiplicado por 20 cigarrinhos soltos chega à casa de 100.000 cigarros acesos. E é claro que a Souza Cruz está falando a verdade. A verdade de que tudo isso não é verdade. É uma grande besteira. Engana trouxa que sempre encontram interessados, sempre cheios de boas intenções.
O tempo passou mais um pouco e um dia o menino me cutucou no braço. Estava com uma latinha de Coca-Cola na mão, solzinho ainda baixo, olhei para o menino que abriu um sorriso e pediu: “O senhor me dá a argolinha da latinha?”. Imediatamente imaginei um brilhante projeto de reciclagem, pois se trata de puro alumínio. Mas não era. Era para juntar 5.000 argolinhas que a Kaiser dava uma cadeira de rodas. Peguei o menino, expliquei tudo o que sabia sobre o assunto, mas ele preferiu ir pedir a argolinha do meu vizinho.
Debaixo de sol incandescente, morrendo de calor, parei num posto para refrescar. Eu e meu filho Norbert a viajar ao léu. Uma latinha para cada um, uma coxinha que só esses postos sabem fazer tão ruim, quando distraído, desligado da vida, vira meu próprio filho, aquele que eu vi nascer, que tantas noites fui arrumar a chupeta ou trocar as fraldas cheirosinhas, no frescor de seus 11 anos de idade e diz: “Dá a argolinha para mim que eu estou juntando com meu amigo. Cada 5.000 a gente ganha uma cadeira de rodas”.
Quase caí da coxinha. É meu filho, tem já 11 anos, como pode não entender que uma coisa dessas não existe por ser impossível? Pensei um pouco e tentei me lembrar que idade eu tinha quando eu juntava selinhos de cigarros: 11 anos. Deixa o moleque viver os sonhos da vida dele. Eu já dei a minha versão. Acho que fiz meu papel. Ou abre uma loja para vender cadeiras de rodas, ou vira político e distribui nas campanhas. Em cabeça de criança entra até isso.
Um maço de cigarros barato custa hoje cerca de 1 real. Para uma cadeira de rodas seriam necessários 5.000 selinhos ou R$ 5.000,00. Mas acontece que mais da metade do preço do cigarro é impostos (e eu acho pouco devia ser mais). O lucro do fabricante é feito no volume de vendas, ou seja, é um lucro muito pequeno, que se torna grande pois a companhia vende muito. Finalmente, custa uma fortuna para essas empresas distribuírem esse cigarro para todas as localidades do Brasil. Não escapa uma única. Só até aí já concluímos que, se fosse verdade uma besteira dessas, seriam necessários mais de 50.000 selinhos para levar uma cadeira de rodas. Mas isso já é problema do meu filho Norbert e seu amigo, que quer colecionar cadeira de rodas ou doá-las para alguém. Até amanhã.

16.1.06

 

Motivo maior

Por razões de saúde, a crônica de hoje não poderá ser postada. Agradeço a compreensão.

 

Motivo maior

Por razões de saúde, a crônica de hoje não poderá ser postada. Agradeço a compreensão.

14.1.06

 

As putas da vida

Bom dia. Imagino que as mulheres estejam até "putas da vida" com esse título, mas hoje em dia ser puta está na moda. Não as prostitutas, aquelas moças lindas e elegantes que fazem programas com fazendeiros e acabam por levar até R$ 1.000 por noite, quando não muito mais que isso. Hoje é dia de falar das putas pobres, ou seja, independente de quanto ganhem, é o pão de cada dia. Nem são tão lindas, nem tão gostosas, nem tão novas, mas são profissionais que vivem na profissão mais antiga do mundo e que se não fizerem isso não têm a menor condição de levar uma vida digna.
Vida digna??? Pois é. Desde que 'nem sei quem foi' inventou a marca Daspu, aproveitando o charme da gentalha graúda que freqüenta a loja Daslu, melhor lugar para se rasgar dinheiro no Brasil, que não se fala em outra coisa. A Daslu até tentou impedir a marca, mas foi um tiro no pé. Ontem, por exemplo, as modelos Beth Lago e Luana Piovani foram desfilar a nova coleção da Daspu, provavelmente de graça, no grande desfile da "griffe" no centro do Rio de Janeiro, rivalizando com a realização do RioFashionWeek. São roupas vistosas, feitas para chamar a atenção e, principalmente, deixar bem claro que se trata de uma puta, ou profissional do sexo se assim lhe soa melhor.
É o que o Brasil tem de melhor. A suave convivência democrática de idéias tão antagônicas. Agora as prostitutas brasileiras terão onde ficar "no topo da moda", para ficarem mais vistosas e bem produzidas, sem descaracterizar a profissão que se dá, no mais das vezes, nas ruas da cidade. É uma coisa tão organizada que quem quer pára, quem não quer passa reto, e elas levam para casa a comida das crianças, sem contar que têm que pagar alguém para cuidar dos filhos (da puta) que ficam com alguém que também ganha para tomar conta de criança.
Essa profissão é uma necessidade social. É diferente de qualquer outra e por isso nunca acabará, não importa em que país se esteja. As moçoilas bonitas e charmosas não fazem sexo com homens de meia idade, baixinhos, carecas e barrigudos. Para piorar são feios, com os dentes sujo de nicotina, etc e tal. Eles já se conformaram que não conseguirão, salvo as ditas exceções, casar ou fazer sexo com uma menina bonita. E se uma bonita quer fazer sexo com ele em troca de dinheiro, que mal pode haver nisso? Ela se oferece, ele aceita, discutem o preço e lá se vão ser felizes por alguns minutos. Está bom demais. Só lamento a falta de 'prostitutos' para remediar o sofrimento carente das feias, gordas e cheias de celulite que não conseguem homem nem pagando. Deveria ser uma coisa mais organizada.
A Daspu é um marco importante na sociedade brasileira desde, talvez, as obras de Nelson Rodrigues, mestre que sabia de forma genial esfregar a hipocrisia da família brasileira na cara dos brasileiros. É o fim do puritanismo de fotografia. É um evento tão importante que chamou, com simpatia, a atenção da grande imprensa e das grandes celebridades, porque gastar dinheiro na Daslu (talvez até para levar um produto falsificado), com estacionamento à base de R$ 30,00 por hora, fora todos os problemas fiscais e morais da marca que vive às turras com a Receita e a Polícia Federais, é mesmo uma idiotice. Duvido muito que quem trabalhe freqüente a tal loja. Só as mulheres e filhas dos que trabalham.
Torço muito para que a Daspu lance todos os anos suas coleções, e que consigam a cada ano a adesão de mais celebridades. É uma causa simpática que comove as pessoas despreconceituosas. Afinal ser puta é apenas uma questão de leitura. Todas as pessoas que venham a fazer sexo baseado em algum conforto que não haveria sem ele pode, na teoria, serem chamadas de putas. Aliás o último mega-sucesso de Gabriel Garcia Marques é justamente "Memórias de Minhas Putas Tristes". Até amanhã

13.1.06

 

Literatura de porta de banheiro


Bom dia. Tentei até procurar na minha vasta biblioteca (uns 20 volumes, mais ou menos) sobre o deleite, o prazer, a alegria, a diversão, a profundidade, o grande conhecimento que se adquire lendo portas de banheiros públicos (fechadas, é claro). Lá o ser humano coloca-se mais pra fora, fica sentado, empurrado por duas paredinhas azulejadas laterais, limpas como o pano que as limpou. A Constituição trata, e as tradições confirmam, a total liberdade que o ser humano tem dentro do banheiro.

Mas, como tudo na vida, nem tudo é igual. Porta de banheiro de rodoviária, por exemplo, traz mensagens de toda a rede de cidades cobertas pela rodovia, sem contar os que estão de passagem. Logo, pela letra, dá pra ver o nível cultural da patuléia. Pelo conteúdo, então, a imbecilidade aflora e só se vê a mesma coisa. Um diz que é gay, o outro baixa o nível, outro desenha um enorme pênis, talvez para fazer ver sua criatividade suprimir seus desejos. Xinga-se o governo, fala-se de mulher como se fossem escravas porcas, pra usar e chutar, e outros delírios. Nunca imagine que se trata de pouca coisa. Numa porta de banheiro cabe um livro, não fosse a repetição.

Há uma piadinha sobre um casal de náufragos, um era a Sharon Stone, que ficaram meses numa ilha até que ele conseguisse namorar com ela. Dia seguinte, ele pediu para ela dar uma volta na ilha vestida de homem e, ao encontrá-la(o) do outro lado disparou: “Imagine você: estou comendo a Sharon Stone”.

Isso é o que mais tem em porta de banheiro. O que tem de gente que tem desejos sexuais macabros com a mãe da gente, é brincadeira. Sabe, me veio agora à mente, que eu nunca entrei num banheiro feminino que fosse bem decorado com frases tão cultas e lapidares. Ouvi dizer que é a mesma baixaria, invertendo sexos e situações. Mas o mais delicioso, creio eu, é garimpar coisa inteligente e interessante no meio de tanta pornografia. E tem. Incrivelmente tem. Chega-se a duvidar que alguém, com algo a dizer, procure uma porta de banheiro de rodoviária, ou de escola, para publicar seus escritos. Há muita coisa boa a se pinçar de banheiros assim. É sentar, não ter pressa e ler. Um dia ainda faço isso, caso esteja à beira da morte, claro.

Escrever em banheiro, além de ajudar a passar a pressa dos enfezados, dá um toque de marginalidade, uma sensação humana inexplicável de querer fazer algo errado, quando não está sendo observado. Talvez as mães fiquem por demais de olho em seus filhotes. Eles, dentro da lógica linear que usam, acham que, uma vez começada, pode rabiscar a porta inteira que o preço de consertar é o mesmo. Não é dos piores argumentos, não fosse a dificuldade em achar o primeiro. Aí a gente matava o primeiro e o segundo não começava. Nada começa com o segundo.

Acho que a sociedade deveria surpreender criando o “Concurso Nacional de Portas de Banheiro”, convidando gente de todas as cidades para participar. É só tirar a porta, moldurar e mandar. Tenho certeza que, apesar de muito parecidas, cada uma reflete sua região e a origem de seus autores.

Isso é como fazer pichador virar grafiteiro. Pode ser “maluca” a princípio, mas foi assim que várias cidades limparam seus prédios da obra dos pichadores e eu acho que os pichadores de porta de banheiro deveriam ter suas obras, que são coletivas, também expostas.

Acreditem ou não, isso já foi pior. Esses bancos de ônibus que são de plástico duro, já foram almofadados. De tanto riscarem e rasgarem os bancos, optou-se por um duro onde perde o bom e nada ganha o ruim. Fora os orelhões, a primeira grande idéia de depredação, foi de pichar o mundo, desde que inventaram a lata de spray. O fabricante nada tem a ver com isso, pois nem foram eles que inventaram o aerosol. Se não houver lojas de tintas vendendo artigos do gênero, como pintaremos nossas casas?

Não há justificativa para o desejo humano de delinqüir. Uns têm medo e não fazem, mas a quantidade de valentes que enfrentam o lobo-mau (polícia), porque o lobo-mau não vem é muito grande. Não há fiscalização, soldados, carros, armas, estratégia, plano de ação, munições, táticas, comando, inteligência e vontade política. Todos os delegados argumentam falta de tudo. Mas há alguns que, mesmo tendo pouco, fazem mais do que se espera dele.

Bela paçoca de assuntos eu fiz hoje. Até amanhã

12.1.06

 

São Francisco revisitado


Bom dia. Acho que se São Francisco de Assis estivesse vivo iria adotar essas frases que consegui no quarto de uma adolescente. A mãe da garota estava a me mostrar a casa, quando li um pedaço do texto. Pedi uma caneta e comecei a copiar. Não sei se há autor conhecido a ser citado. A mim pareceu que não, mas como é tudo para o bem, isso deixa de ser tão importante. Vejam só:

“Se for para esquentar, que seja no sol. Se for para enganar, que seja o estômago. Se for para mentir, que seja só a idade. Se for para roubar, que roube um beijo. Se for para perder, que seja o medo. Se for para cair, que seja na gandaia. Se houver guerra, que seja de travesseiros. Se houver fome, que seja de amor. Se for para ser feliz, que seja o tempo todo”.

Coisa de adolescente, é claro, mas que traz um jeito de sonhar mais puro ainda. Roga para que tudo o que seja ruim fique bom, e que onde haja dor, que prospere a paz. Pode ser um texto do finado Renato Russo, aquele que conseguiu lindas besteiras, uma delas é que nós não entendemos nossos pais. Brilhante dedução. Nossos pais também não entendiam os deles.

Acho que a adolescência vai insistir em nos provar sua vocação para a lentidão e a paz. Demoram tanto para se organizar que, quando tudo está pronto, já não há sobre o quê protestar. Mas esses adolescentes dão mais colorido, mais graça e mais decibéis às passeatas, festas e o que mais houver. Talvez por acreditarem na questão. Mas a questão é outra.

Estamos, na verdade, vivendo uma revolução, onde os adolescentes têm que procurar caminhos porque nós não indicamos nenhum. Vivo repetindo que a geração dos anos 50/60 errou muito. Foi um fracasso. Com as devidas exceções, que por sinal não são tão poucas assim, os adolescentes estão sem líderes (como o nosso Che Guevara), buscando nos finados entorpecidos, respostas para suas dúvidas. Vem daí minha intenção de publicar essas frases tão lindas, cândidas, prontas para acabar com a maldade sobre a Terra. Viva o amor!!!

Nós não repreendemos nossos filhos pois pode ser traumático, ou a mãe nem sabe porque estaria batendo. Não dizemos “não” às suas vontades, pois o pobrezinho tem a possibilidade de ficar um adulto problemático. Também não conversamos sobre drogas, sexo e rock-and-roll, porque não entendemos nada disso, uma vez que nossos pais não tratavam desses assuntos. Há um batalhão de pais incompetentes, eu sou um deles, e acho que a nossa auto-crítica está meio manca.

Qualquer pessoa pode lembrar de como foi a sua infância. Apenas talvez não tenha capacidade de lembrar todos os detalhes. E acabam casando para mais uma desastrosa união.

Quando perguntamos a outro deles como seria sua vida de adulto, muitos respondem que poderá ser qualquer coisa, menos repetir os atos de seus pais. Fico com vergonha, mas ainda há tempo de consertar, espero. Mas dizem que não querem separar, divorciar ou o que seja, pois isso faz sofrer muito, também não querem ter filhos pois dá muito trabalho e tira a liberdade (como se eles não tivessem sido recém nascidos, não tivessem dado trabalho noites a fio, e nem tirado a liberdade de ninguém). Enfim, é a “Geração MacDonald´s”, só que não no passo acelerado do mundo, mas, como na letra de Lulu Santos: “Assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade”

Esses adolescentes, deixando a confusão de hormônios de lado, são bastante perspicazes, mas têm uma baixa auto-estima. Se acham feios (o que na maioria das vezes acontece), mas sairão de seus casulos como lindas borboletas (hoje eu estou romântico). São pródigos em nos alimentar com argumentos de que podem usar o carro antes dos 18 anos, porque ninguém é pego. Claro que são. Mas a maioria se livra, sabe-se lá porque. Eles são sempre a maioria. Eles são os adolescentes, o futuro desse País. A gente só tem que esperar.

Enquanto esperamos, além dos conselhos e ensinamentos do verdadeiro Francisco de Assis, podemos adaptar e encaixar essas mensagens, para melhorar a adolescência, e todos nós, “véios”, que nos negamos a ir para o cemitério virar banquete de vermes. Nós, talvez, precisemos mais dos conselhos do santo que a própria adolescência. Até amanhã.

11.1.06

 

Aumentar a quantidade de deputados???


Bom dia. Para falar a verdade esse assunto até me embrulha o estômago, mas os nobres deputados federais estão querendo aumentar o número de membros de 513 para 541 deputados. Assim tudo fica muito mais caro e a representatividade continua a mesma. Se alguém ainda não sabe, existe uma lei do tempo dos interesses da ditadura militar, que inventou que qualquer estado da federação pode ter, no mínimo, 8 deputados e no máximo 70. É o caso de São Paulo, o mais populoso estado da nação. E Sergipe, tem 8 deputados. Não há uma proporção séria de mais deputados para o estado que tem mais eleitores. É uma representividade meio esquisita, mas é o que temos.
Todos os anos tenho que ouvir essa cantilena que daqui pra frente tudo vai ser diferente, mas o Congresso Nacional, que usando uma frase célebre do ministro Ciro Gomes, está mais sujo que pau de galinheiro, vê sua imagem indo para o ralo e a turma se dividiu entre os que querem salvar o mandato pelo amor de Deus, e uma outra parte que por lá trabalham sério desde muitos e muitas eleições. O deputado Delfim Netto (PMDB-SP) é um deles.
Nós temos hoje, na média, 19 deputados para cada estado. Para quê mais que isso? Porque não 15 por estado na média? Para quê 8 deputados para resolver os tão importantes problemas de Sergipe, Piauí, entre outros tantos? Hoje, graças a esse oportunismo da era Figueiredo, o Nordeste tem mais deputados que o sudeste. No entanto são de baixa qualidade, porque não são capazes de se unirem para melhorar a vida do povo nordestino, que parece que nasceu para viver nas péssimas condições de vida. Sempre tem os ricos das capitais, mas a pobreza, a injusta distribuição de renda, faz com que a miséria impere no Nordeste do Brasil, e todos esses deputados não se entendem para resolver as pendengas, porque cada deputado responde a seu coronel.
É difícil ver, depois do desgaste que o Congresso ainda passa, uma proposta de aumento de deputados. Não faz o menor sentido. Eram 503, passaram para 513, e agora 541? E tem que arrumar apartamento, verba de gabinete e mais 35 funcionário para cada um deles? Será que esses nobres vagabundos não se enxergam? Será que eles pretendem mesmo serem levados a sério? A população brasileira deveria interditar o Congresso Nacional e exigir uma postura mais digna desses nossos representantes. Do jeito que está, não tem graça alguma.
Tenho ainda na memória a frase célebre o finado deputado Ulysses Guimarães, que dizia que toda a população brasileira estava representada no Congresso Nacional, inclusive os traficantes, bicheiros e bandidos de todas as espécies. Basta lembrar a quantidade de provas contra o então senador Jáder Barbalho, que chegou a ser preso pela PF por desvio de conduta, e que renunciou para não ser cassado mas o povo paraense o devolveu à Câmara como deputado federal. Hoje é um deputado do baixo clero, é verdade, mas está lá faturando seu rico dinheirinho todos os meses. É de dar nauseas. Com licença que eu vou vomitar. Até amanhã.

10.1.06

 

Um modelo de Educação


Bom dia. O nome da pessoa em questão seria fictício, mas a história é real. Conheço uma pessoa semi-analfabeta. Essa definição parece, assim, ilógica, algo como estar ligeiramente grávida. Os não alfabetizados, são as crianças que ainda não aprenderam a ler e escrever. Depois que entram na escola são alfabetizados. Semi-alfabetizados, portanto, parece se tratar de alguém que morreu a caminho da escola.

Humor negro à parte, o fato é que esta pessoa sabe ler. Conhece as letras, sabe pronunciar o que lê. Mas não tem a menor idéia do que está escrito ali. Não é capaz de ler suas 4 linhas diárias de horóscopo, e sair satisfeita com a “informação de seu futuro”. Pede então para que eu, ou outra pessoa, traduza para o português falado, o que ela acabou de ler no português escrito. Quando se deixa um bilhete para esta pessoa, é necessário que seja em letras de forma, com palavras poucas e muito simples. E o risco de que ela não entenda e não faça o que foi solicitado é muito grande. Convém ligar mais tarde pra conferir.

Os textos são escolhidos por ela por quantidade de letras. Se tiver demais, tá descartado. Só se interessa por pouquíssima coisa, pois não consegue tirar, do texto escrito, informações que estimulem sua vida, seu futuro. Sua escrita é básica, periclitante, formando frases quase ininteligíveis, e ainda troca “c” por “s”, “j” por “g” e assim por diante. Toda sua comunicação é falada e, como se imitasse as músicas dos queridos meninos dos “Mamonas Assassinas”, fala “Eu ‘di’ um beijo nela...”. Diz também, eu “fazi” e outras coisas normais em crianças de um ano ou dois, que estão aprendendo a falar. Concordância verbal nem pensar. Se até eu arranco meus cabelos quando leio, depois de postado, meus erros de concordância, que por força de profissão não deveriam ocorrer, ela fala “pra mim fazer”, “dá isso pra eu”, “eu sou di menor”, “eu sei de decor” e as outras coisas de praxe para aquilo que não sei definir se é analfabetismo ou não. Mas, se há tanta gente nessas condições por aí, nem chega a ser uma novidade essa minha longa explanação.

Há porém um detalhe que não contei, pois foi isso que me inspirou a fazer a crônica: essa pessoa está regularmente matriculada no 1º colegial, ou 1ª série do 2º Grau, como queiram, numa escola pública. Poderia se tratar de uma pessoa com certa deficiência mental (ou aqueles nomes politicamente corretos que eu não tive tempo de aprender), mas também não é o caso. Trata-se de uma adolescente de 16 anos, que nunca repetiu uma mesma série. Ela foi sendo promovida, junto com a falta de aprendizado, para os anos seguintes, na esperança que alguém fizesse alguma coisa no futuro. E a coisa foi indo, o tempo foi passando, e daqui a dois anos ela estará pronta para prestar vestibular e entrar na faculdade.

Porque o espanto? Será que não há vestibulares para essas pessoas? Há sim. Não nas boas universidades do governo, pois é lá que se enfia 80% da verba gasta com educação, mas nas faculdades particulares, que hoje fazem mais publicidade em televisão que fabricantes de sabão em pó ou refrigerante, e que sempre darão um jeito de promovê-la para que ela saia com algum diploma de qualquer curso fraco, e está formada mais uma universitária brasileira. Nem vai fazer provão. Ela não precisa disso. Prouni, então, nem pensar.

Mas ainda que tivesse estímulo para ir para a Universidade, como uma pessoa pobre e desassistida poderia pagar uma faculdade particular? Bem, eu poderia pagar para ela ou outra pessoa poderia fazer o mesmo. O que importa é que uma pessoa que não sabe, na prática, escrever, ler ou falar, não sabe aritmética simples, muito menos nomes de datas importantes do Brasil, está com um título escolar incompatível com o seu saber. E se ela virar professora? Será que os professores dela não sabem menos que ela?

Da idéia absurda de eliminar a repetência, basta aprovar a todos. Serão formados batalhões de analfabetos incultos, pois eu conheço muita gente que nunca viu um lápis e um papel para aprender, mas sabe tudo sobre sua região, pessoas, hábitos e o que mais faltou. Só não sabem escrever. São pessoas inteligentes, que aprendem com facilidade, como é, a priori o caso desta pessoa. Estou começando a desconfiar que o professorado, pelo menos desta escola, caso que conheci e estou escrevendo, precisam voltar para a pré-escola e começar tudo de novo. Não poderiam deixar, para a dignidade da profissão, que coisas assim acontecessem. Mas lá no sertão do nordeste, onde o governo só olha em eleições (“Eu vou acabar com a seca do Nordeste”), professoras não diplomadas andam quilômetros para cumprir o seu papel de ensinar. Debaixo de uma mangueira, com recursos ridículos, crianças sentadas no chão aprendem o beabá, e saem melhor que todos esses que têm escola perto de casa, asfalto, carteira, lousa grande e até porteiro. Até amanhã.

9.1.06

 

Ouro para o bem do Brasil


Bom dia. Hoje eu gostaria de contar para a maioria das pessoas uma história que aconteceu no Brasil quando eu era criança. Como a idade avança e a memória atrofia, procurei, revirei e remexi a internet do avesso e não achei nada que se referisse ao assunto, para que eu pudesse dar informações mais precisas. De qualquer forma, serei sempre grato a qualquer pessoa que escreva para mim, contando quem e por quê fez isso. Isso o quê? A campanha “Dê Ouro Para o Bem do Brasil”. Lá pros idos de 1964 e 1966, se não me falha a memória.

Funcionava assim: o Brasil estava sem lastro, precisava de algum. Ditadura militar instalada, foi simples. Chamaram o povo ao seu dever cívico de se desfazer de qualquer coisa de ouro e doar voluntariamente. O voluntariamente é necessário, pois não se tratou de uma atitude arbitrária do governo, onde todos fossem obrigado a “doar”, o que caracterizaria um saque. Pior que isso, foi uma chantagem sem vergonha, que incutiu na cabeça do povo que aquele caminho era o certo, que a gente tinha mais é que cortar na própria carne.

Servia qualquer coisa. As pessoas para lá se dirigiam e, uma a uma, iam jogando seus ouros no saco que o governo providenciou. Alianças, brincos, correntinhas, anéis, crucifixo, pulseiras e qualquer outra coisa, em troca de um anelzinho de metal vagabundo com a frase lapidar: “Eu dei ouro para o bem do Brasil”. Mas, pra variar, no dia em que lá estivemos os anéis tinham acabado. Ou seja, a gente dava ouro para o bem do Brasil e nem tinha anelzinho de metal vagabundo para recompensar, ou mesmo mostrar para os outros.

Eu gostaria de poder discutir ou analisar, com a distância que só o tempo proporciona. Mas realmente não é fácil. De qualquer maneira me lembro que, todos bonitinhos, fomos, meus pais e irmãos, levar umas pecinhas de ouro para doar. Na fila a alta sociedade, talvez a única com algum ouro para dar ao Brasil. Brincava com os filhos de um ou de outro amigo do meu pai. Era uma festa. Como numa eleição, o sujeito ia até o “saco”, jogava dentro seu ouro, e passava para pegar o anelzinho. Quanto rendeu de ouro? Não tenho a menor idéia e acho que ninguém teve. Minha mãe acha que não foi muito, mas apenas o fato do governo fazer uma coisas dessas... Meu cunhado chorou, me disse a pouco, por não ter, naquela época, nem uma pecinha de ouro para doar para o bem do Brasil. Veja só.

Vamos analisar por outro lado. Vamos imaginar que Lula e Palocci exagerem no vatapá e tenham a idéia de fazer isso de novo. Já chamavam o publicitário Duda Mendonça, e a campanha ia correr solta. Já estou vendo o outdoor: “Só o seu ouro pode salvar o País”. Se não colar, pode sair com essa: “Só o seu ouro pode salvar a seleção brasileira”. Daí é fatal.
Convocados, o povo brasileiro iria desconfiar. Ao contrário dos meus pais e de outros bobocas (no bom sentido, claro) que saíram de casa para levar o ouro ao bandido, não creio que isso aconteça hoje. Um pouco pelo mesmo motivo de outrora, ou seja, o povo não tem ouro pra dar mas, principalmente, porque o povo não confia no governo que tem. Para qualquer solicitação, a resposta será sempre NÃO! E os ricos falarão NÃO pela mesma razão: tenho, mas não vou te dar, tá?
Os impostos são, na verdade, ouro puro em moeda corrente. Quem não se preocupa com o imposto que paga, ou é desinformado ou tem fé cega nos governantes. Não deveriam. Em cada 1 real gasto num frasco de detergente, 18%, ou R$ 0,18, vão parar no cofre do governo. Imagine agora tudo o que se compra e vende no Brasil. Nós pagamos imposto demais para serviço de menos. Esse governo Lula, imitando os demais que antes dele por lá estiveram desde a Proclamação da República, não têm pendor para divulgar contas, explicar onde foi gasto o nosso dinheiro. Lógico que tem onde procurar. Procure o Tribunal de Contas da União e peça pra ver. Se conseguir entender ganha um doce. Na hora de recolher impostos os pobres servem. Para ler a prestação de contas tem que ser doutor.
O povo chegou ao limite do descrédito em qualquer governo. Ainda salvam alguns prefeitos que tem o eleitor a vigiá-lo mais de perto. Lula está com seu prestígio mais esfrangalhado que o topete do Itamar Franco. Fez tantos conchavos que agora não sabe se enfrenta ou se entrega aos bandidos. Está pendurado em Palocci, que administra o seu, o meu, o nosso dinheirinho. Ainda bem que alguém tem prestígio por lá, pois eu não vou doar meu ouro (acho que teria que comprar algum se quisesse fazê-lo) enquanto não me explicarem onde foram parar as alianças de papai&mamãe. E quantos quilos de ouro eles levantaram. E em que cofres foram parar. E quem eram os donos dos cofres também. Até amanhã.

8.1.06

 

Comprar miséria sai muito mais barato


Bom dia. Há certas coisas repugnantes, como a miséria em que se encontra uma enorme parte da população brasileira, que já poderia estar extinta se o governo decidisse comprá-la. É bem simples. Cria-se um batalhão de assistentes sociais que saem pelos locais onde todo mundo sabe existem pessoas famélicas, morando em condições indigentes, em baixo de pontes ou favelas, e começa-se a fazer um cadastro sério para poder enviar a estas pessoas um salário mensal que lhes proporcione, ao menos, a condição de consumidor. São as pessoas que vivem do "lixão", por exemplo, ou que pedem esmolas nas esquinas, ou que vivem em lugares ermos e sem estrutura alguma, pessoas que são capazes de trabalhar todos os dias, de sol a sol, para apurarem, no final do mês, menos que os 300 reais do salário mínimo para toda a família.
É bem verdade que alguns pré-requisitos precisam ser tomados. Os vereadores, deputados estaduais ou federais não podem, sob hipótese alguma, fazer parte desse processo. Não podem nem fazer indicações. Nada! Se não trabalham nas câmaras ou assembléias para quais foram eleitos, seria uma temeridade deixar isso nas mãos deles, ou mesmo perto deles. Tem que ser uma ação do executivo, uma ação de governo. Quando se dá dinheiro a essas pessoas para que sejam consumidores, dá-se também a oportunidade de que se reciclem e se preparem para viver numa sociedade que, sendo mais justa, acaba por ser, conseqüentemente, mais moderna.
Mas é preciso que seja uma coisa séria. Uma família de 12 pessoas tem que ganhar mais que uma de 3. Tem que dar escola para as crianças, mas também para os adultos. Tem que fazer a baratíssima inclusão digital. Por 1.000 reais se tem um computador pronto para conectar à Internet. Instalados em quantidades suficientes, pais e filhos podem aprender a viver com dignidade, ao invés de esconderem suas misérias, envergonhados que são com tal situação. A enorme parte dessas pessoas sabem muito bem o que fazer com as oportunidades que lhes aparecem. Apenas precisam de uma, e não em troca de votos. Não com patacoadas em anos de eleições. Nada que seja diferente quando se troca governos, a menos que, visivelmente, seja para melhorar o sistema. E que eles possam se manter distantes dos milagres e embustes das igrejas evangélicas que querem os 10% do minguado ganho.
Uma escola, por exemplo, onde os pais aprendam técnicas modernas de desenvolverem uma pequena horta, onde possam plantar o que comer e vender algo que sobre. Uma escola que ensinem as mulheres a costurar, bordar, ou fazer qualquer coisa que possa melhorar seus ganhos. Enquanto aprendem as lições na escola, junto com seus filhos, ganham dinheiro suficiente para viver com alimentação decente. Aprendem a entender noções de higiene, conhecer o que é um esgoto, e porque seus filhos, além deles próprios, não podem conviver com isso. Entre tantas razões, uma delas é que o esgoto trás muitas doenças que vão gerar gastos extras nos postos de saúde. Se os pais aprendem como evitar pequenas doenças, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) ficarão muito menos ocupadas e podem, assim, prestar um serviço melhor. Ensinar às mulheres o planejamento familiar é fundamental para diminuir a miséria no Brasil.
Já ficou claro, em diversas partes do mundo, que o dinheiro que se investe na compra da pobreza rende resultados breves na arrecadação de impostos e na economia com ajudas "tapa-buracos" como os Cartões do Cidadão que o governo adora mostrar em época de eleição. Não pode ser uma esmola como é o sistema atual. Tem que ser uma escola. Quem matricula-se nessas escolas de cidadania, tem ganho certo no final do mês mas, a cada dia, menos pessoas precisarão desse sistema, pois vão parar com a cantilena que os governos adoram ouvir que é a famosa frase "é Deus que quer assim, seja feita sua vontade". Deus é incapaz de fazer qualquer coisa que não seja iniciada pelos governos que respondem pelo bem estar da população. Ninguém sabe o porquê, mas é incapaz.
O caso brasileiro é grave porque o país é rico. Não falta dinheiro, até porque o governo fica com quase 40% do PIB brasileiro. Gasta tão mal essa enormidade de recursos, que depois não tem como explicar porque não assiste melhor os desvalidos. E também não sabe explicar porque é que ricos e pobres pagam a mesma alíquota de imposto. O que mais gera dinheiro é o ICMS, que já vem embutido nos preços das mercadorias que são vendidas no comércio, e assim o pobre tem a amarga ilusão de que não paga imposto. Os pobres são os que mais pagam impostos no país.
O Brasil precisa rapidamente rever seus pontos de vista se quiser aparecer para o mundo como uma nação séria, uma vez que dinheiro o mundo todo sabe que temos. Países que recolhem muito menos impostos (percentualmente), oferecem muito mais oportunidades a seus pobres. Não estamos falando aqui de tapar buracos, mas de profissionalizar cidadãos, nem que seja para artes manuais em casos extremos. Ao menos trabalhar com reciclagem qualquer um é capaz de aprender e fazer dinheiro vendendo brinquedos e tantas outras coisaas com latinhas e garrafas pets, só para ficar em um exemplo que todos podem ver. Mas há muito mais o que ensinar, há muito mais dignidade a oferecer, e assim se cria um consumidor que, ao comprar, também contribui para aumentar a arrecadação.
É imoral, além de ilegal, que os governos municipais acabem por permitir que seus camelôs ganhem status de comerciantes, quando na verdade só vendem produtos piratas. O poder público, nesse caso, é cúmplice do crime. Qualquer cidade que mantém os tais camelódromos são cúmplices no contrabando, pirataria e outros delitos fiscais. E ainda têm a cara-de-pau de cobrar uma taxa para que o camelô instale sua barraquinha nas ruas das cidades. É de chorar de amargura.
Ainda tenho a esperança que um dia apareça um governo, preferencialmente municipal, que mostre efetivamente que isso não é apenas um delírio. Mas isso nunca vai acontecer se o governo federal não transferir os recursos, diretamente para as prefeituras, mas em quantidade suficiente para se chamar de programa de recuperação da cidadania. Caso contrário só vai ter essa esmola inutil mesmo, e um monte de vereadores e deputados, feito urubus em volta da carniça, a mentir que se não fossem eles a coisa não teria acontecido. Aliás, para se falar a verdade, se não fossem eles, não haveria tanta CPI em tantas e diversas câmaras de parlamentares municipais, estaduais e federais. Até amanhã.

7.1.06

 

Ariel Sharon: O exterminador



Bom dia. Ariel Sharon, primeiro ministro de Israel, está agonizando vítima de um derrame cerebral irreversível. Vai morrer a qualquer momento, se já não morreu enquanto escrevo essa crônica. Me lembro desse homem desde 1982, quando ele era chefe do exército israelense que dizimava palestinos que viviam no Líbano, em Sabra e Shatila, inocentes ou não, com um poder de fogo comparável a matar uma barata com um tiro de canhão.
Sharon nunca teve o menor pudor em destruir cidades e humanos, como bem pode-se ver atualmente com os ataques que ele fez na Palestina. Para cada israelense que os palestinos matam, ele se compromete em matar 100 palestinos. É, como sempre foi, um assassino cruel, frio, escabroso. Olhando por esse lado, estou certo que, depois de Hitler, acho que ninguém matou mais inocentes que Ariel Sharon. Por esse motivo sua morte deve ser comemorada no mundo todo, e nunca, jamais, sentida. Foi-se um facínora, um carniceiro, um escabroso exemplo de homem e político. Fazer política como ele faz é facílimo. É, enfim, um terrorista que o mundo aceita uma vez que foi eleito pelo povo israelense. Os israelenses, como os americanos, não têm o menor pudor em aniquilar inocentes. Lembre-se as bombas atômicas que os EUA lançaram no Japão para dar fim à 2ª Guerra Mundial.
Mas voltando à parte que me toca, não me sai da cabeça a imagem de mães correndo com seus filhos no colo, enquanto Sharon despejava toneladas de explosivos sobre Beirute. Me fazia, de verdade, chorar assistindo o Jornal Nacional. E esse facínora, um verdaeiro hipopótamo alucinado, conseguiu ser o primeiro ministro de Israel e, pelo seu projeto de criar um novo partido, seria um líder mais expressivo e com autoridade para continuar trucidando palestinos ou qualquer um que bater de frente com seus conceitos de paz.
Hoje, portanto, quero aqui desabafar a minha alegria em ver Sharon agonizando de derrame. Até preferiria que fosse um atentado que o deixasse aleijado para o resto da vida, como tantos aleijados que ele fez durante o tempo que viveu. Mas um derrame está de bom tamanho. Ao menos agora, morto o homem que sempre odiou Yasser Arafat (e vice-versa) e nunca quis fazer a paz com o líder palestino, só a guerra, o mundo pode ver alguma esperança em haver, enfim, paz na Palestina. Vá pro inferno, Sharom, e já vai muito tarde. Até amanhã.

6.1.06

 

Chávez e Stroessner



Bom dia. Há uma semelhança incrível entre os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, e o Gal. Alfredo Stroessner, ex-presidente do Paraguai. Ambos são ditadores eleitos democraticamente pelo povo, depois de dar um jeito de estuprar a contituição de seus países. A diferença é que um é comunista e o outro era um direitista. Strossnner deu um golpe de estado em 1956 e, a cada quatro anos, era reeleito com uma imensa vantagem sobre qualquer outro candidato, porque seu partido Colorado era, na prática, o único do país. O partido Branco da oposição era ameaçado com a força de armas a se manter calado, e todo mundo tinha muito medo do general que não tinha qualquer escrúpulos em mandar prender, torturar ou matar qualquer um que fizesse sucesso junto à população que, na prática, era contra o seu governo. Ele tinha todo o exército paraguaio na mão, e uma teia de corrupção que servia com fartura seus apaniguados. E assim foi reeleito seis ou sete vezes, tornando-se o ditador mais antigo do mundo, até ter seu reinado cassado por outro golpe militar que o derrubou, e aos poucos o Paraguai começou a experimentar um pouco de democracia. Está longe de ser um exemplo, mas ao menos o presidente muda a cada quatro anos.
Chávez, depois de ter seu golpe de estado fracassado, tentou ser presidente pelo voto direto e conseguiu. Com o dinheito do petróleo sobrando no caixa do governo, imprimiu um sistema assistencialista na forma de, ao invés de ensinar o povo a pescar, dá-lhe o peixe, mas lhe cobra obediência. E o que mais poderia querer toda a sociedade pobre e majoritária da Venezuela? Supermercados subsidiados quebraram os antes existentes, pois oferece comida por metade do preço. A gasolina custa o equivalente a R$ 0,08 por litro, e todo mundo pode ter aqueles carrões velhos americanos que, quando estão de bom humor, fazem 3 km por litro de gasolina. Chávez não expulsou a direita de seu país. Apenas a fez minguar, quebrando com suas idéias pouco convencionais mais de 60.000 comerciantes do país. Se o estado dá o que a população precisa, porque pagar a um comerciante? Resumindo, a força de Chávez está apenas nos dólares ilimitados que o petróleo oferece, e agora está querendo liderar um bloco de esquerda sul-americano, onde ele afirma fazer parte, além da Venezuela, o Brasil, a Argentina e agora a Bolívia que acabou de eleger Eve Morales. A única coisa que eles têm em comum, de verdade, é que todos esses presidentes são de origem pobre, que subiram na vida e hoje governam seus países. Mas os povos e as constituições são tão díspares, que a idéia de um bloco "comunista" é só um sonho. A democracia brasileira e a argentina não dão margem para esses desbundes. Mas enquanto Lula e Kichnner forem presidentes, podem parecer que são de esquerda nos moldes de Chávez e Morales.
A comparação entre o esquerdista Chávez e o direitista Stroessner, ambos militares, mostra que a democracia verdadeira, onde o desejo da maioria real da população escolhe seu presidente e os deputados que vão lhe apoiar, pode sim ter seus dias contados. Está claro que, mesmo que Lula quisesse, jamais conseguiria votos necessários para fazer uma constituição para lhe servir, como conseguiu Chávez na Venezuela, e como também pretende fazer Eve Morales na Bolívia. Mas esses desastres políticos, verdadeiros cânceres latino-americanos, atrapalha o Mercosul, que foi criado apenas para países democráticos, que elegem seus governantes por eleição direta. Visto por esse lado a presença da Venezuela não pode ser barrada. Todas as loucuras de Hugo Chávez estão amparadas na constituição venezuelana, como era a paraguaia e como será a boliviana. Mas o que está em jogo também, talvez principalmente, é que o descalabro político pode fazer Chávez ter a idéia de partir para sua "revolução bolivarianista", provocando os EUA alimentando as FARC na Colômbia. Daí para achar que fará uma só nação sul-americana é um passinho.
Os venezuelanos terão um dia que resolver essa questão da ditadura democrática de Chávez. Mas é de bom senso começar a isolar a Venezuela enquanto o Congresso não representar o que pensa toda a sociedade. Por um milagre que só Chávez consegue, a oposição boicotou as eleições parlamentares e, acreditem ou não, hoje Hugo Chávez tem 100% dos deputados venezuelanos. É como se o PT tivesse elegido 513 deputados federais. Não é possível, desta forma, ainda dar apoio à Venezuela. Comercialmente, enquanto Lula for presidente, está sendo um bom negócio ser amigo da Venezuela, porque Chávez acredita mesmo que Lula, um dia, será um ditador como ele. Lula gosta muito de mandar, mas não chega a esses devaneios. O Brasil não é a Venezuela, e nunca será. Mas a Petrobras, junto com a PDVSA venezuelana, acabam de fechar um contrato de bilhões de dólares para uma nova refinaria em Pernambuco. Imaginando que um próximo presidente brasileiro esteja mais à direita, não se assustem se Chávez desfizer o negócio na base do "a bola é minha, eu mando no jogo". Chávez é um moleque irresponsável e precisa ser tratado como tal. Até mesmo pela população venezuelana que, apesar de tudo, nada tem a ver com o caso. Apenas vêem atônitos seu país caminhar a passos largos, em marcha batida, para o retrocesso político. Não dá para imaginar a América Latina como um grande bloco, à imagem dos soviéticos. Deus que nos proteja. Até amanhã.

5.1.06

 

A gente só planta o que colhe

Bom dia. A gente só planta aquilo que colhe. Quem teve uma má colheita, com certeza plantará dívidas. No máximo conseguirá pagá-las. Quem teve colheita farta, plantará variedades de possibilidades de lucro maior, e gerador de riqueza abundante. Por questões de gestão ou de mercado, com os naturais golpes de sorte ou azar, algumas pessoas possuem grande liquidez financeira, não devem um centavo, e estão prontas para investir em qualquer oportunidade de lucro lícito, dentro das regras democráticas de uma economia livre. A esses se pode dar o nome de ricos.

O caráter dos ricos é tão democrático quanto qualquer outro mais pobre. Há entre eles os construtivos e os exploradores, os humanistas e os egocêntricos, os politizados e os distraídos, como também as devidas exceções. Há até os analfabetos. Amam o próximo como a si mesmos como todos fazem: cada um a sua maneira. Quanto ao vocabulário, não têm tanto prazer em se dizer ricos como os pobres em se declararem pobres. A rotina também é brega ou elegante, como em qualquer classe social.

Os ricos movimentam riquezas, produção e emprego. Ficam com a maior parte dos lucros, mas assumem todos os riscos. Em sua maioria são vencedores, oportunistas dedicados, e trabalham rotineiramente para o crescimento de seus negócios, de suas vidas e de suas famílias, como a maioria dos mortais ditos normais. Comem o que querem e vão para onde querem como qualquer um faria se tivesse dinheiro.

É importante excluir deste meio os que lidam com muito dinheiro mas é todo emprestado. São dinheiros nem sempre bem explicados, em grande parte fraudulento de alguma maneira, e quando vão à falência descobre-se que apenas viviam entre os esbanjadores, mas nunca foram, nem serão, ricos. Rico sempre vive muito bem, mas raramente esbanja. São naturalmente econômicos, mas poucos são mesquinhos.

Mas o que há de importante nisso? Ora, basta olhar para as eleições que serão feitas em outubro. Os políticos que tiverem uma boa colheita, ou seja, o que mostrar para o eleitor, poderão plantar uma boa campanha e se encher de votos. E os eleitores que colheram as indecências dos políticos que elegeram, com certeza deverão plantar coisa melhor para os próximos quatro anos.

É claro que é apenas uma inversão do tradicional “a gente só colhe o que planta”, mas você já tinha experimentado filosofar de trás pra frente? Verá que de fato existe uma nova experiência entre o colher e o plantar. É só encaixar na vida e pensar um pouco. Livre pensar é só pensar (Millor). Bom divertimento. Até amanhã.

4.1.06

 

O chão de estrelas do PT


Bom dia. Eu gosto de contar essa história porque ela marca uma geração. Quando o PT foi fundado ninguém o levava a sério. Nem mesmo os petistas. Achávamos que o Lula era o líder das massas e que ele mudaria o Brasil mas, lá no fundo, ninguém acreditava que ele um dia seria presidente. Lá naqueles anos, a gente recortava uma estrela grande numa chapa de compensado, colocava espuma na parte de baixo e um cabo na parte de cima, e passávamos a noite carimbando as ruas da cidade com uma bandeija de tinta latex vermelha. Era, ao menos, muito divertido.
Nós sonhávamos com um país meio socialista, meio comunista, meio cubano, meio soviético, numa tremenda pizza do crioulo doido onde todos saiam muito felizes. A primeira eleição significativa foi a eleição de Eduardo Syplicy para o Senado. Depois foi a Benedita da Silva, uma prefeitura aqui ou ali, e chegamos a governar coisas maiores apenas quando os gaúchos elegeram o prefeito de Porto Alegre. Não quero falar dos deputados pois esse tipo de eleição tem menos importância. O fato é que Lula ficou no "quase presidente" por 3 eleições até que ganhou essa.
E agora, José (Dirceu)? Àquela época, Dirceu ainda era um "companheiro" significativo, pois foi perseguido pela ditadura militar, coisa que virou moda colocar no currículo. Na verdade, todo mundo que tivesse sido perseguido pela ditadura militar estava habilitado a entrar no PT para salvar o Brasil. E para ser perseguido pela ditadura militar era a coisa mais fácil. Bastava colocar um broche da foice e martelo da URSS, e falar de democracia, eleição direta, entre outras coisas. Daí, qualquer soldado da esquina te prendia, te carimbava de "traidor da pátria", e ficava preso lá por alguns dias. Não quero menosprezar, ou subvalorizar, aqueles que de fato sofreram pesadas torturas no DOI-CODI em São Paulo, coisa horrorosa da história do Brasil, mas também não quero endeusar e dar salvo conduto para qualquer um que foi preso por alguns dias por participar de uma reunião aqui ou ali.
O problema é que a gente cresce, e vê as pessoas mudarem de opinião de acordo com as suas conveniências. Olhando pelo ponto de vista de hoje, onde o partido de encontra emporcalhado e enxovalhado pela opinião pública, dá para se notar que o que aconteceu foi mesmo uma coisa natural para o PT. Jamais se corromper com empreiteras ou outras práticas malufistas. A arquitetura seria a de que, uma vez no poder, bastaria acoplar o partido ao Estado e, na certeza que o Zé Dirceu tinha que o PT governaria o Brasil por uma longa era, talvez por 50 anos, tirar dinheiro público para o partido, que faria tudo de bom para o Brasil, de forma que todos colaborando para o bem estar de todos, ninguém estava roubando ninguém, nem fazendo prática condenável. Uma coisa é você pedir 15% para uma empreitera, coisa dos governos passados. Outra coisa é o Banco do Brasil adiantar uma comissão aqui e ali, para que os milhões necessários fossem parar na conta do careca Marcos Valério que deu o nome ao "valerioduto". Daí ele cobriria as necessidades do PT, sob ordem do Delúbio Soares que, acredito eu, realmente tinha o crédito da cúpula do PT. O problema, companheiro, é que o partido precisava de dinheiro e o Delúbio sabia como arranjar. Como todo petista era honesto, e os da Direção Nacional eram triplamente honestos, não havia do que duvidar. Podia-se não saber como Delúbio arrumava dinheiro, mas tinha-se a certeza de que era dinheiro limpo, honesto, declarado, etc e tal.
Quando a máscara caiu, a maioria dos petistas descobriu, estarrecida, que os petistas eram pessoas iguais às demais, suscetíveis à corrupção. Ficamos todos de cara caída. Chocados! E quando a CPI foi demonstrando dia-a-dia que era corrupção das grossas mesmo, das grandes, ficou claro também que havia um líder para tudo o que aconteceu. Era um sistema maquiavélico dirceusista, onde o que menos importava eram os meios. Do alto do seu cargo de "primeiro-ministro", esnobava a tudo e a todos, não conversava com quem não era da cúpula, e esparramava sua arrogância e falta de respeito em todos os cantos do mundo. Juro que ainda não sei se Lula sabia tudo o que Dirceu fazia, mas fica claro que Zé Dirceu dispunha de uma confiança cega, onde Lula poderia fazer o que mais gosta, viajar pelo mundo defendendo suas idéias, desfrutar do poder como um rei, certo de que tudo estava sob controle, pois estava nas mãos do companheiro Dirceu.
Em qualquer corja, sempre há um mais indecente na liderança, e esse foi o papel de Zé Dirceu nesse processo. Eu não conheço petista rico, nem que tenha enriquecido (e continuado petista), mas olhando essa nojeira toda, desde tanto tempo, me deu saudade do tempo em que, com meus amigos adolescentes, varávamos as noites de Araraquara carimbando estrela no asfalto. Esse PT nunca mais vai voltar, ainda que o atual PT se recupere. Saudade do tempo que o "sapo barbudo" gritava nos palanques da vida. Saudade do PT que todos sonharam e que, pelo que parece, nasceu para ser a melhor oposição do Brasil. Salvo as honrosas e prestimosas exceções, o PT é mesmo bom de palanque e bom de oposição. Melhor voltar às origens. Ser pedra é melhor que ser vidraça. Até amanhã.

3.1.06

 

Indústria da multa é coisa muito boa


Bom dia. Eu morava no Canadá. Precisava ir a uma loja grande, que não oferecia estacionamento e, achando que estava com sorte, enfiei meu carro numa vaga que apareceu, de uma outra loja, fingindo não ter visto uma placa que proibia o estacionamento. Afinal pretendia ficar na loja menos que meia hora, talvez mesmo antes que algum policial aparecesse para preencher uma multa e chamar um guincho para desocupar o lugar. Coisa banal no Canadá. Quem estaciona onde não pode leva uma multa de 57 dólares canadenses, coisa próxima a 100 reais, e mais 125 dólares para liberar o carro, coisa que não é feita em nenhum órgão do governo. É lá na garagem do “guincheiro” mesmo. É só pagar e ir embora. Não há burocracia alguma. Se achar que é injusto, como não cansam de dizer os canadenses, basta não parar onde há placa proibindo o estacionamento. Eles nunca multam quem não descumpre a lei, e quem descumpre sabe muito bem o valor da multa.

Dentro da visão brasileira, eu tive sorte. De fato o guarda não apareceu a tempo, e nem o guincho foi chamado. Mas o dono do estacionamento invadido (não era na rua), resolveu colar no pára-brisa do meu carro um lembrete de que eu havia usado seu estacionamento indevidamente. Num adesivo impresso dos dois lados, mais ou menos no tamanho 20x30cm, no lado de fora ficava visível para o mundo a palavra INFRATOR, em vermelho sangue. No lado de dentro vinha um texto simpático, educadíssimo, instrutivo, coisa de gentleman, cuja tradução seria mais ou menos a segunte. “Senhor motorista: esta vaga é destinada aos clientes da nossa loja, e está plenamente sinalizada. Solicitamos uma maior atenção de V.Sa. numa próxima oportunidade, buscando estacionar seu veículo nos locais permitidos pela lei em vigor”.

Não gostei muito da simpatia do aviso, pois, fora o vexame, era impossível dirigir com um adesivo daquele tamanho bem na frente dos meus olhos. Tinha que tirá-lo de lá. Foi o que tentei fazer, mas daí descobri que a tecnologia de adesivos no primeiro mundo já havia atingido níveis avançadíssimos. Quem falou que o adesivo saía? Até para apagar a palavra “INFRATOR”, do lado de fora, foi uma dificuldade que me tomou mais de meia hora. E foi só o que consegui. Com muita cautela e muito medo, pois se um policial me pegasse dirigindo com um trambolho daquele no vidro provavelmente me levasse preso, cheguei em casa, e munido do que havia de mais poderoso em facas, detergentes e acetonas e fui tirar o adesivo. Para resumir, encostei meu carro no dia seguinte numa loja de pára-brisas, gastei 100 dólares e coloquei um vidro novo. Foi a solução. Saiu um pouco mais barato que a “multa+guincho”, mas me tomou muito tempo, e lá tempo é realmente dinheiro. Deixei de receber todas as horas que perdi trocando o vidro. Eu trabalhava com o carro.

Ao tirar sua Carteira Nacional de Habilitação, mais conhecida entre os brasileiros como “carta de motorista”, há uma série de observações legais que sabemos responder na teoria, mas não sabemos praticar. Velocidade máxima em área urbana, onde não há sinalização, é de 40km/h. Alguém se lembra disso? Em vias expressas, sem sinalização, 60km/h. Alguém se lembra disso? O que há de errado, então, colocar radares escondidos para flagrar infratores? Porque precisa avisar tanto? O que tem a indústria da multa de tão repugnante? Eu tenho a resposta: NADA!!!

A indústria da multa gera empregos, dá renda ao município, e só aborrece infratores. Dados oficiais mostram claramente que 75% dos veículos da Grande São Paulo nunca foram multados por qualquer tipo de infração. Dos 25% restantes, a maioria se deu por estacionamento em lugares proibidos (e devidamente sinalizados). Só a minoria, que sofre no bolso as conseqüências de suas inconseqüências, é que ficam berrando nos microfones das rádios e televisões sobre os achaques dos que são contratados para colocar ordem na baderna. É de um ridículo estarrecedor. E mais estarrecedor é o espaço que conseguem. Dá a impressão que têm todos os jornalistas a seu lado. Jornalistas têm mesmo o hábito de se acharem diferentes dos outros. Eu não sou jornalista, mas vira e mexe me acho diferente dos outros também. Deve ser coisa de corintiano.

Há canalhas em todos os ramos, inclusive na indústria da multa. Multa não foi feita para instruir. Instrução se consegue na auto-escola, no banco escolar, em casa, lendo jornais, querendo ser cidadão. Multa foi criada para punir, pra fazer doer, para ensinar os folgados que eles têm que obedecer às leis como os outros. Se para isso for necessário esconder radares, que escondam. Que usem câmeras escondidas para desmascarar corruptos, que apurem para que os juízes tenham mais juízo e menos condescendências em seus julgamentos. Se o serviço é terceirizado, é claro que é preciso haver grande fiscalização na aferição dos radares, para que a velocidade seja apurada com justiça, e que tenham fotos para não haver debate se o carro era mesmo do infrator. Mas uma vez isso provado, tem mais é que pagar e ficar quietinho. Dona Maria, aos 70 anos, dirige seu carrinho há mais de 40 anos, nunca levou uma multa e sabe muito bem o porquê. Ela cumpre as leis. Ela é do bem. Ela não faz interpretações convenientes só aos seus interesses.

Finalmente uma curiosidade extra para alfabetizados do Brasil. Por acaso aquela placa oitavada, em vermelho e branco, que costuma freqüentar quase todas as esquinas do Brasil, está escrito “PARE”, ou “DÊ A PREFERÊNCIA”? Por acaso parar, em algum dicionário, está definido como “reduzir a velocidade”? Voltando lá pro Canadá, quero lembrar que lá, STOP é pra parar mesmo. Se não estancar o carro, e só depois seguir, o guarda surge de detrás da árvore, lhe dá um papelzinho amarelinho que irá lhe custar 57 dólares na carteira (de dinheiro) e 3 pontos na outra carteira (a de motorista). Se você gosta de andar em velocidade acima da permitida e estacionar em locais proibidos, vá plantar batatas. Você é infrator e deve ser tratado como tal. Se você é cumpridor das leis, não perca seu tempo com esse assunto. Você nunca terá que contribuir com um único centavo para a benéfica, inteligente e patriótica indústria da multa. Ela é um bom farol. Quanto mais pessoas obedecerem às leis, mais nanica e inconsistente será essa indústria. Se ela é forte, poderosa e altamente arrecadadora, é porque há infratores demais no Brasil. Bem feito pra eles. Só são estridentes. Mas são pouquíssimos comparados com o universo de usuários de automóveis no Brasil. Só os espertos teimam em não enxergar o óbvio. Até amanhã.

2.1.06

 

Lula no Fantástico

Bom dia. Não deu para acreditar. A chance que Lula perdeu ao dar a entrevista no Fantástico foi de chorar de amargura. Como pode o presidente perder uma audiência tão qualificada para ficar repetindo que ninguém sabe de nada até que tudo seja devidamente apurado em todas as CPIs e julgado no STJ? Eu sempre digo que se a gente encontrar um bicho alto, de pescoço muito comprido, comendo folhas nas árvores, malhado de amarelo e laranja, com dois chifrinhos em cima, não precisa de um laudo de um zoólogo do Ministério da Saúde para dizer que se trata de uma girafa. A gente sabe.
Se o presidente tivesse a coragem que sempre mostrou até virar presidente, e dar nomes aos bois, dizendo claramente que José Dirceu acoplou o PT ao governo, fazendo uma maracutaia típica da URSS (se alguém ainda se lembra disso), de forma que o partido e suas "necessidades" fossem financiadas pelos cofres públicos, e que em virtude disso ele mesmo ia se empenhar em mandar esse traidor às barras da Justiça, acho que estaríamos hoje, no início do ano, com a alma bem mais leve. A expressão presidencial, durante a entrevista, era a de que o Zé Dirceu estava do outro lado da sala dizendo a ele tudo o que podia ou não podia dizer. Como disse o também indecente Roberto Jefferson, ficou tão claro que o Zé era o chefe da quadrilha, que se assemelha ao caso da girafa.
É óbvio que todo mundo precisa ter todos os direitos de defesa. Mas também é óbvio que certas defesas são inúteis pela obcenidade dos atos praticados. Por esse ponto de vista, qual a diferença entre Zé Dirceu e Maluf?
Talvez o PT seja mais espertinho e coloque um outro candidato para perder as próximas eleições e poupe Lula desse vexame. Talvez fosse a melhor maneira de Lula retomar o PT e refazer suas bases "religiosas" para algo mais político e menos fanfarrão. Ainda creio que o ato presidencial mais plausível do finado governo Itamar Franco, foi demitir ministro acusado até que prove sua inocência. Lula poderia imitar o famoso mineirinho. No entanto, deliciado que está com o poder, acredita em milagres de última hora, e que esse ano entregará tantas obras que o povo esquecerá tudo o que se passou nos últimos 5 meses. Pelo o que tenho ouvido do povão, tá mais fácil o Roberto Jefferson ser eleito.
Foram tantas as oportunidades que Pedro Bial deu a Lula na entrevista, que não dá para entender como é que essas oportunidades foram desperdiçadas. Lula está cego. Quero mesmo acreditar nisso, porque a outra possibilidade é ser ele o chefe do Zé Dirceu, e aí não sei mais que cara vou fazer para explicar para o meu filho porque foi mesmo que eu fiquei 25 anos pregando estrelinhas petista no peito do povo. Até amanhã.

31.12.05

 

Cronistas em pânico

Bom dia. Certa vez, estávamos eu, Dona Cecília e o jornalista José Maria Viana reunidos em volta do balcão do jornal O Imparcial, de Araraquara, discutindo sobre a ingrata obrigação de ter que parir um artigo por dia (não tem cesariana nem anestesia), chova ou faça sol, e com alguma qualidade, para não perder os poucos que nos lêem. Quem escreve para não ser lido, deve fazer show de mágica sozinho no banheiro. Mas vem o dia que não dá “insight”, uma palavrinha afrescalhada em inglês que quer dizer, mais ou menos, “tcham”, mas que é usada para designar quando uma idéia entra pela sua cabeça.
Eu já tive esse problema anos atrás, e só voltei a escrever com compromisso diário agora. Mas lá nos anos idos, faltando uma hora para entregar o material para o jornal, me via sem saber sobre o que escrever. Daí achei original (quanta ilusão) explicar ao leitor que eu estava mesmo sem assunto, e comentando matérias estampadas no jornal do dia até que saiu um artigo legalzinho. Nada mais natural que me viesse agora a mesma preocupação: e se eu ficar sem assunto, escrevo sobre o que?
Viana me disse que sempre passa por isso. Mas não é só ele. Carlos Heitor Cony escreve uma coluna diária relativamente pequena na página 2 da Folha de S. Paulo e já se declarou sem assunto. Até ele, vejam vocês. José Simão faz isso volta e meia, talvez porque produzir trocadilhos seja mais difícil, ou porque assunto é uma parte reservada para o julgo terminal do autor. Quando o autor não gosta do assunto, não tem assunto bom, pelo menos até enquanto der tempo de fazer um rapidinho.
Foi assim que tive a idéia de escrever algumas crônicas tapa-buraco, para serem usadas quando eu estivesse naqueles dias. Iria escrever uma sobre falta de assunto e outras gerais que pudessem ser usadas indistintamente. Mas não foi possível. Quando abro o jornal, leio um artigo de Luiz Carlos Bedran, intitulado “Felicidade”, que falava da “síndrome do papel em branco”, ou seja, a falta de assunto. Desisti de escrever crônicas estepes e resolvi assumir que, no dia em que eu estiver cronicamente sem assunto, vou falar mal de alguém. Nunca faltam palavras para quem quer praguejar e o público parece ficar mais animado.
Afinal, FHC também tinha falta de assunto quando resolveu nomear o diretor geral da Polícia Federal para mandá-lo embora no dia seguinte, acusado de tortura e arbitrariedade. O Coroné-Painho Antônio Carlos Magalhães, doravante denominado ACM, quando está completamente sem assunto xinga qualquer um, do presidente da República até o suplente de vereador de Quixeramobim. Ciro Gomes também entrou nessa e reinventou o “pau de galinheiro”. Lula sem assunto é um prato cheio, só perdendo para o Vicentinho. Leonel Brizola, velho caudilho do PDT, chegava até a puxar o samba do impeachmeant (saúde) de FHC ou de Lula. Ou seja: todo mundo sem assunto só pode expressar sua impotência diante do fato, falando ou escrevendo qualquer coisa que lhe venha à cabeça, e nem sempre o que vem cheira bem.
Não deixa de ser um ponto a favor dos escritores o fato deles poderem gerar, reler e modificar seus escritos. Tem que ficar contando espaço também. Os demais, que também sofrem de falta de assunto, que se cuidem no que dizem. Não dá pra jogar a folha no lixo e falar de novo. Nem dá pra desxingar o que a TV gravou. Melhor explicar que foi mal compreendido.
Mas o que me consola de verdade é ver que o Jornal Nacional, que por seu poder cobre o mundo todo para nós, anda todos os dias sem assunto. Deve ter sido um contágio fulminante. Se eles podem, o que tem de mais, uma vez ou outra, ter que ler uma crônica meio capenga? Não pode ser das piores coisas da vida e eu até que ando bem acompanhado. Tapei um buraco para o dia 31 de dezembro, e assim todos os dias haverá uma crônica nova para quem gosta desse tipo de conversa. Até amanhã.

30.12.05

 

Bye, bye 2005! Já foi tarde!!!

Bom dia. Amanhã é dia de correr atrás de peru e panetone, então é bom postar as opiniões hoje mesmo. Que 2005, heim Dona Maria?!? Só sobrou para comemorar o IGP-M que ficou só em 1,21%. O resto é só reclamação. Nem vou perder tempo em falar mal do governo, que nada sabe, nada viu e, portanto, nada vai fazer para mudar. Todo mundo já guardou a misteriosa posição política para as eleições do próximo ano. Inclusive os deputados cínicos que estão fazendo pré-campanha eleitoral, fingindo que vão devolver o dinheiro que receberam para a tal convocação extraordinária. É de fato extraordinária. Vamos rezar para ver se alguém se lembrará de divulgar os nomes dos deputados nos dias que antecederem as eleições. É muito nome para uma insignificância só. Querem um exemplo? O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) já sabia que Delúbio era Delúbio muito antes de toda essa podridão aparecer. Pecou pela omissão. Perdeu o meu respeito (se é que alguém está merecendo respeito do Congresso, seja por ação ou por omissão). Lembram que o deputado Enééééas teve 1,5 milhão de votos e até hoje ninguém o viu na tribuna ou sendo entrevistado por quem quer que seja. Já no caso de Severino... Ah, vamos deixar pra lá. Amanhã é dia de soltar rojões. Vamos mirar Brasília e ver se aquelas nobres pessoas dos 3 poderes se emendam. Mas será só um gesto simbólico. O que menos se acha por lá é servidor público com vontade de trabalhar, incluindo como 'servidor público' apenas os ditos cujos. Os brasilienses são muito legais e vivem no melhor IDH do País. Sorte deles. FUCK YOU 2005!!! BOTA DEVAGAR 2006!!! Até segunda.


29.12.05

 

Esse é só o primeiro

Bom dia. Há certas coisas que a gente quer botar pra fora, independentemente de um ou outro querer. Já escrevi e publiquei mais de 500 crônicas em jornais, e agora vou fazê-lo na internet, já que os jornais não têm abrangência mundial. Não nego um certo ar de prepotência, mas escrever é um vício como outro qualquer. Então fique ligado e, se já achar interessante, recomende paa os amigos. A partir de 2 de janeiro é uma por dia, ou até mais. Bom fim de ano e um Feliz 2006.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Nova pagina 1


Promoted at Global Promote - globalpromote.com

Bannerlandia
Promoted at Global Promote - globalpromote.com

WebRing da Roda de Mate

Participar | Lista | Blog
Powered by RingSurf
Blogs.com.br - O Ponto de Encontro dos Blogueiros do Brasil
- - UOL Busca - /CPIdasprivatizações http://busca.uol.com.br/ UOL Busca pt-br Notícias UOL - O melhor conteúdo. Todos os direitos reservados. - UOL Busca http://rss.i.uol.com.br/uol_rss.gif http://busca.uol.com.br/ - - - <![CDATA[ ( ) ]]> - - - -